O janeleiro e a banda

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Tem gente que passa a vida debruçada na janela, vendo a banda passar.

Dia após dia, contenta-se em permanecer ali, protegido por meias paredes e trancas.

Observando os passos e compassos, avaliando mais que admirando.

Torce o nariz para o repertório sem ao menos se atentar para a letra das canções.

Sabe de onde todo mundo vem e para onde todo mundo vai.

Com o tempo, se torna especialista na arte de ver defeitos e diante do espelho, pensa: Essa banda merecia alguém bom como eu!

A despeito do uniforme dos músicos, imagina sempre uma sugestão mais adequada, mais moderna, mais funcional e segue afirmando para sim mesmo: Essa banda merecia um figurinista como eu!

Quanto aos casais apaixonados [pobres coitados!] que seguem a banda a bailar, não passam impunes ao observador que  comenta: Descarados! Esses jovens mereciam um pai como eu!

O janeleiro nunca será surpreendido pela chuva e jamais saberá o quão árduo é marchar sob o sol escaldante de verão.

Não colecionará calos nos pés [devidamente protegidos por chinelos confortáveis] e o seu ar-condicionado não permitirá que fique com o rosto molhado de suor.

Sim, ele se sente solitário muitas vezes, mas prefere permanecer ali, inerte, passivo, crítico.

O observador de janela não compreenderá jamais o prazer de levar alegria aos ouvintes, desconhecidos ou não.

Ele ainda não descobriu a sua vocação e ainda não atendeu ao chamado para se juntar à banda.

Do alto de sua janela, lança olhares críticos e imponentes, mas que na verdade  refletem o medo, a oposição e o opressão que se submeteu. Sua altivez não passa de complexo de inferioridade.

Que venha sem demora o dia em que o janeleiro tenha um encontro com o Maestro da banda.

Que ele seja arrebatado pelo motivo maior, pela canção que liberta a alma e transforma o coração.

Que ele engrosse a fileira dos que levam a canção sem se importar com a previsão do tempo, com a distância a ser percorrida ou com a aparência do uniforme.

Que o janeleiro se torne parte da banda.

Que cante, dance e sinta prazer em fazer isso.

Que seja feliz por fazer os outros felizes.

Que deixe a janela para trás e siga musicalizando os caminhos, cultivando amizades, fazendo a diferença e levando a mensagem.

Da banda eu não saio. Da banda ninguém me tira…

Camila Vaz

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3 comentários sobre “O janeleiro e a banda

  1. Camila, que texto verdadeiro!!!
    Também não quero ser janeleiro… quero sim estar em movimento, quero estar na “banda” do Senhor…rsrsrs.

    Demorei pra vir aqui porque meu computador estava estragado… mas ficou pronto e já estou matando as saudades das amigas.

    Super beijo e fica na paz!

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